História Isto é a liberdade… …isto é a capoeira Iêêê!… Toca o berimbau… Toca o pandeiro… Toca o atabaque, transmitindo arrepios de emoções e sensações. O aperto das mãos dá inicio a uma brincadeira corporal com movimentos arriscados cheia de mandinga e malícia, esquiva, defender do ataque surpresa e finalizar o jogo com a saudação dos camaradas… Esta é a herança deixada por essa dança negra que em tempos deu a liberdade aos escravos. Isto é a liberdade… Isto é a capoeira… Que sofreu e ainda sofre modificações pois uns defendem a sua tradição, outros só o papel de desporto ou simplesmente a arte marcial. África… …Brasil África, a escravatura começa por volta de 1430 com a chegada dos portugueses. Estes provocavam e alimentavam ainda mais a rivalidade entre tribos africanas, provocando conflitos que resultavam em prisioneiros, depois, negociavam com traficantes negreiros para estes os comprarem. Numa altura em que já havia um enorme e desumano tráfico de escravos, Portugal descobre o Brasil e a sua colonização começa por volta de 1530. Começam então as grandes viagens dos navios negreiros de África rumo a terras brasileiras Barcos com dor… …mais dor lhes esperava! Viajando sem qualquer espaço ou condições nos porões dos navios, uma grande parte de africanos morria por doenças e maus-tratos. Esta perda de liberdade provoca neles um sentimento de revolta e dor. À chegada eram sujeitos a leilão para os capatazes e senhores que escolhiam só os melhores. Uns faziam tarefas domésticas, outros, trabalhos forçados. Os feitores davam a disciplina para garantir a produtividade dos escravos e estes, em troca recebiam pão, pano ou castigos por assassinar feitores e cometer suicídio e até mesmo por se reproduzirem. Sem qualquer atitude humana os escravos só podiam fazer o seu próprio cultivo fora de horas do trabalho. Os feitores tinham a liberdade nas chibatas… … os negros tinham a liberdade na Capoeira Aos poucos a fuga era a única saída que tinham mas para isso havia os capitões-do-mato que de tudo fazia para os devolver ao cativeiro, e com pesados castigos, mas depressa eles fugiam, cada vez mais organizadas, no meio de uns rituais e cultos orixás, permaneciam disfarçado as danças ao som de atabaque de que resulta a capoeira. É da força física do trabalho escravizado e dos movimentos dessa dança que muitos dos escravos conseguem a sua liberdade. Liberdade no quilombo… Nas matas e já com a liberdade, os negros formavam quilombos onde viviam segundo as suas regras. Foram numerosas estas comunidades e chegaram a travar muitas lutas com escravocratas. O quilombo mais conhecido foi o de Palmares que depois de setenta anos de resistência foi destruído, mas a força desse povo permaneceu. Foi em Palmares que foi registada a capoeira pois esse povo vencia com a sua maneira de lutar e aos poucos foi-se tornando uma arma de defesa e ataque. No caso da Capoeira trouxemos aqui algumas definições para análise do que significa essa manifestação cultural do nosso povo. “Capoeira é mandinga de negro em ânsia de liberdade, seu princípio não tem método e seu fim é inconcebível ao mais sábio dos mestres.” Mestre Pastinha …os múltiplos aspectos da capoeira… …se manifesta consoante o contexto… …como a água toma a forma do vaso… …no treino é ginástica… … Na festa é uma dança… …na arte é coreografia… …na tradição é folclore… …na briga é luta… …no perigo de vida é defesa pessoal… …na vida é filosofia… …na medicina é terapia… …na educação é pedagogia… …na infância é a brincadeira… …na velhice é sabedoria… …no exército é arte militar… …no estresse é o alívio… …para neurose o equilíbrio… …quer mais? Dr.Decânio “Esses homens aqui escravizados, em sua grande maioria, resistem ao sistema conscientemente ou não, desenvolvem um processo de resistência cultural e assim como uma recriação do negro africano no Brasil surge a Capoeira: uma linguagem polissêmica, com vários sentidos, que como uma das contradições do processo de dominação, representou e ainda representa importante elemento também para a preservação da identidade sociocultural e, sem dúvida uma forma sui generis de estar no mundo”. César Barbieri Depois de vermos essas definições, podemos concluir pelo menos duas coisas, primeiro: que a capoeira é um elemento cultural muito poderoso; e segundo: que ela está enraizada na história do nosso povo, da nossa nação, representando desde seu gênesis, exatamente, a parcela majoritária dos excluídos socialmente. A Capoeira nasce com um propósito muito claro e definido: LUTAR PELA LIBERDADE. Na época ser livre significava deixar de ser bicho, de ser coisa, significava voltar a ser gente, ou seja, ser considerado como pessoa, como cidadão. Dá-se, entretanto, o primeiro passo rumo à inclusão social, dentro da história brasileira, que já nasceu com o grupo dos excluídos. Então, podemos afirmar que, a Capoeira historicamente sempre representou a luta pela inclusão social e que essa luta tomou várias formas dentro do processo histórico, dependendo do momento e da necessidade imposta, até chegar hoje a instrumento de educação/formação, e ofício que tem oportunizado a muitos serem incluídos socialmente, ou pelo menos, prepará-los melhor rumo a essa inclusão que deveria ser um direito garantido pelo estado e pela sociedade. Mestre Pastinha (1889-1981) Vicente Ferreira Pastinha nasceu em Salvador, a 5 de Abril de 1889, filho de um espanhol, José Señor Pastinha e de Raimunda dos Santos, uma negra baiana de Santo Amaro da Purificação. Deu os primeiros passos na capoeira quando tinha 10 anos, com um Velho Africano, o mestre Benedito, que tinha pena de Pastinha pois todos os dias apanhava de um garoto mais velho, Pastinha aprendeu a arte da mandinga e certo dia aplicou-a contra esse garoto. Desde esse dia que ficaram amigos e Pastinha ganhou respeito. Pastinha entra na marinha aos 12 anos e durante 8 anos ensinou capoeira aos colegas. Saiu aos 20 anos e abriu a sua primeira escola de capoeira entre 1910 e 1922 e depois, mudou-se para o Cruzeiro de São Francisco. Pastinha foi também pintor, chegando a dar aulas de pintura á óleo. Foi jogador de futebol, treinou o Ypiranga, seu clube de coração, (de onde tirou as cores do uniforme para o seu grupo: o amarelo e preto) foi engraxador, vendeu jornais, praticou esgrima, ajudou a construir o porto de Salvador e foi alfaiate. Em 1941, Mestre Pastinha fundou o “Centro Desportivo de Capoeira Angola”, onde ensinava esta arte e fazia apresentações de capoeira para os turistas. Já no final da sua vida, e praticamente esquecido, Mestre Pastinha foi despejado de onde morava e, em fins de 1979, completamente cego e depois de ter tido um derrame cerebral e de estar internado mais de um ano no hospital Público, vai para o abrigo D. Pedro II. Morreu aos 92 anos, em 14 de Outubro de 1981. Foi homenageado com toques de Berimbau no seu enterro… Mestre Bimba (1900-1974) Manuel dos Reis Machado nasceu no bairro Engenho Velho, na Freguesia de Brotas, Salvador Bahia, a 23 de Novembro de 1900, filho de Luís Cândido Machado, conhecido como um grande batuqueiro, e de Maria Martinha do Bonfim, crioula de Cachoeira. O apelido “Bimba” foi ganho logo quando nasceu, fruto de uma aposta feita entre a mãe e a parteira, pois a mãe pensava que seria uma menina e a parteira um menino. Iniciou a capoeira aos 12 anos, com o africano Bentinho, capitão da Companhia de Navegação Baiana. Com 18 anos começou a dar aulas no bairro onde nasceu, e em 1928 juntou a capoeira angola com a luta do batuque, criando a capoeira regional, uma capoeira com mais golpes. Na altura a introdução de novos golpes na capoeira não foi bem recebida pelos capoeiristas, gerando uma polémica. Mas rapidamente a sua capoeira ganha fama em todo Brasil. Em 1932 fundou sua primeira academia “Centro de Cultura Física e Regional” e em 1937, a capoeira regional era oficialmente reconhecida e registada pelo governo. Em 1939, e durante três anos, Bimba ensina capoeira regional no quartel do CPOR “Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Exército.”. Criou a sua segunda academia em 1942 e a 23 de Julho de 1953, Mestre Bimba mostrou a sua Capoeira Regional ao presidente Getúlio Vargas, no palácio da Aclamação em Salvador, com esta exibição a capoeira foi legalizada. Casado, com 10 filhos e graves problemas financeiros, Mestre Bimba deixa Salvador e vai para Goiânia pensando ter mais reconhecimento. Um ano depois de deixar a Bahia, morreu aos 74 anos, no dia 5 de Fevereiro de 1974 após ter sofrido um derrame cerebral. As academias da Bahia ficaram fechadas durante sete dias em homenagem ao Mestre Bimba.